domingo, 16 de maio de 2010

“Homens doutos, hirtos, de toga e de capelo”, do alto dos seus cadeirões...

Nos tempos que correm, mais de 4 séculos após o nascimento de Galileu, têm ainda uma grande expressão nas universidades portuguesas a chamada autoridade aristotélica como critério de “validação/avaliação científica”. Ou seja, o poder pessoal de julgar (pouco importa como aí se chega) o que tem qualidade ou é científico, relega para segundo plano a análise do rigor dos resultados de uma investigação e da validade da interpretação dos mesmos. A autoridade aristotélica a que nos queremos referir é a sua pior degenerescência: é o poder de julgar na inversa proporção do quadrado da competência para julgar. Por maiores que sejam os dislates, ouve-se frequentemente “o júri é soberano e decidiu!” É em determinadas áreas, com paradigmas ainda incipientes, que isto mais acontece. Aí aplica-se o paradigma do “vale tudo” na linha do relativismo epistemológico radical de Feyerabend. Muito do que se diz ser "científico" nas universidades não passa de uma paródia de palavras ocas, uma fraseologia obtusa e pseudo-académica.

Isso dá azo a carreiras académicas que não são de facto carreiras de mérito; são antes processos de ascensão a patamares de poder crescente por via de tácticas e estratégias, recheadas de uma panóplia de truques e expedientes. E quando assim é, sendo o salto maior que a perna, é fundamental o jogo da propaganda - muitos eventos, aparecer o mais possível, contactos “internacionais”, fazer o nome circular das mais variadas formas, encomendar bajuladores de serviço para o elogio gratuito, traficar influências para obtenção de prémios e honrarias vãs... Tudo isto é um plano meticulosamente executado para cultivar a aura do susposto génio, "legitimando-se" assim o exercício da autoridade aristotélica: poder equivalente a autoridade científica. (São "génios" capazes de inconfessáveis patifarias no silêncio das catacumbas.)


Ora, à semelhança do marasmo atávico da filosofia e da ciência durante a Idade Média, por via do peso da tradição aristotélica, também hoje, as áreas de conhecimento onde imperam as lógicas de poder como processo de legitimação do saber, estão condenadas ao dogmatismo imune à realidade que supostamente seria o seu objecto de estudo. Desse ponto de vista, muito do que se observa na Educação é arrepiante: a prolixa e abundante peroração só pode ser a expressão da estagnação e da demagogia. Às veleidades da inovação e da diferença, os “homens doutos, hirtos, de toga e de capelo” encarregam-se de expurgar as ovelhas desalinhadas do rebanho; porque a inovação fecunda tira-lhes o chão de baixo dos pés, fazendo-os cair com estrondo do alto dos seus cadeirões.

Para que possamos ter uma visão superior, do alto da falésia, vale a pena ver e ouvir o Poema para Galileu, de António Gedeão, declamado pelo próprio em:

http://www.youtube.com/watch?v=PJTu5KM3UG4

Ou então ler:

Poema para Galileo
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu, e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

2 comentários:

Maria disse...

Que bonito poema, do meu poeta preferido!Tão cheio de verdade. Não conhecia. OBRIGADO pela sua publicação.

Luís Sérgio disse...

Excelente post ! Uma realidade bem dissecada , " culminando com um bom poema.

Ab,

Luís Sérgio