quarta-feira, 24 de março de 2010

Ética, humanismo e economia

No Publico, 24/03/10

O economista César das Neves explica logo no início (...): “Ser boa pessoa, como todos sabemos, nunca é coisa que se consiga daquela forma que os executivos usam para conseguir as outras coisas. Por isso, não se pode resumir, simplificar, mecanizar”.

Num momento em que a crise financeira e económica faz salpicar milhares de vezes a palavra “ganância” por textos jornalísticos, ensaístos, humorísticos e de restante natureza; um trabalho sobre ética parece vir a propósito. Sobretudo quando nem todo os “Madoff” que pululuam pelo mundo estão numa barra de tribunal ou a caminho dela. César das Neves é claro: a ética não serve para atingir a perfeição, serve para ser boa pessoa. Isto é, com falhas e erros pelo caminho, o sucesso do empresário mede-se pela actuação no sentido de fazer o melhor possível
.

Comentário:
É bem um sinal dos tempos que seja um economista a debruçar-se sobre o tema da ética num livro de 574 páginas. Nas relações de trabalho, em muitas instituições e organizações, a falta de ética vai-se tornando a norma e pugnar pela ética é ser remetido à condição de excluído. Muita muita gente tenta dissimular a primazia dos seus poderes e interesses particulares, insinuando que é na ponta da chibata que está a elevada produtividade e o interesse geral. Os “Madoff”, não apenas desse ponto de vista, mas igualmente do ponto de vista da honestidade e transparência em todas as esferas de actuação, não se movimentam apenas no mundo das finanças e nas empresas... Os "Madoff" são todos aqueles que ocupando lugares de relevo em qualquer domínio de actividade, exercem as suas funções sem ética nem moral, corroendo desse modo o tecido humano e organizacional, com grave prejuízo para o desenvolvimento da actividade humana em que se movimentam. A ética, para além de um valor fundamental de uma sociedade humanista, é hoje mais do que nunca um problema da economia, no seu sentido mais lato. A tecnologia como valor supremo aliena o Homem e faz-nos regredir civilizacionalmente. É nos valores humanos fundamentais - a dignidade humana, a justiça, a liberdade, a solidariedade... - que teremos que retomar o processo civilizacional, libertando a criatividade, a imginação e a capacidade de sonhar do espírito humano, para fazer face à complexidade dos tempos que vivemos. Não se trata da "inovação" na sua vulgar conotação científico-tecnológica de que tanto se fala; é algo muito para além disso que o Homem de hoje precisa.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Professor vítima de bullying preferiu morrer ...

Notícia do Público

http://www.publico.pt/Educa%C3%A7%C3%A3o/professor-vitima-de-bullying-preferiu-morrer-a-voltar-ao-9%C2%BA-b_1426720

Luis não avisou ninguém do acto radical. Mas radicalizou, segundo a família e os colegas, os apelos junto da direcção da escola para que resolvesse a indisciplina, em particular naquela turma. Fez várias participações que não terão tido seguimento.
(…)
Alguns, sob anonimato, asseguram, tal como a família, que Luís era alvo de bullying e estava "profundamente desesperado e deprimido".
(..)
Outra aluna, a única que, no fim das aulas, ficava para trás para conhecer melhor o silêncio de Luís, lamenta a partida "prematura" e arrepende-se de não ter ficado mais tempo a conversar com ele. "Tive medo do que as pessoas podiam dizer se me aproximasse. Sinto-me muito mal por não ter ajudado mais. Uma vez arrancámos-lhe um sorriso. Quando sorria era outra pessoa."
(…)
A irmã descreve a profunda tristeza do professor nos últimos meses, ao longo dos quais "desabafou muito" com os pais, com quem ainda vivia. Nunca deu indícios do acto. Foram encontrados, depois da morte, no seu computador. "Se o meu destino é sofrer dando aulas a alunos que não me respeitam e me põem fora de mim - e não tendo eu outras fontes de rendimento -, a única solução apaziguadora será o suicídio." A frase encontrada não deixa dúvidas. Há vários desabafos escritos em alturas diferentes que convivem lado a lado com as participações…

Neste blog:
http://liberdadeuminho.blogspot.com/2008/07/sero-essas-pessoas-normais.html
http://liberdadeuminho.blogspot.com/2009/03/podem-passar-mil-anos.html
http://liberdadeuminho.blogspot.com/2010/02/o-assedio-moral-na-primeira-pessoa.html

quinta-feira, 11 de março de 2010

Resolver situações de ameaça, de conflito ou agressão

Notícia do Público
A ministra da Educação disse que apresentará em breve uma iniciativa legislativa específica para combater a ocorrência de fenómenos de “bullying” nas escolas portuguesas, dando aos directores de escola a possibilidade de "suspenderem preventivamente alunos que tenham provocado agressões”.

“Com essa decisão o aluno agressor poderá ser imediatamente afastado da situação de contacto com o aluno agredido. Queremos resolver rapidamente situações de ameaça, conflito ou agressão, sem prejuízo de medidas disciplinares que se instaurem no momento em que há este tipo de situações nas escolas”, apontou Isabel Alçada.

http://www.publico.pt/Educação/escolas-com-mais-poderes-para-suspender-agressores_1426619

terça-feira, 9 de março de 2010

A Avaliação de Desempenho dos Docentes: um contrato de (des)confiança?

Parnas enumera e comenta uma série de vícios e distorções que esta forma de avaliar [regular e subordinada ao critério da quantidade] está a disseminar pela sua comunidade científica, nomeadamente: incentiva a investigação superficial, incentiva a constituição de grupos de trabalho demasiado grandes em que os académicos mais seniores põem o seu nome nos artigos de todos os estudantes e jovens investigadores; incentiva a repetição; incentiva estudos pequenos e insignificantes; recompensa a publicação de ideias incompletas (half-baked). (…) E isto faz toda a diferença e é esta pressão que está a corromper o processo de publicação e a discussão verdadeiramente científica no seio da comunidade académica.
Teresa Alpuim

Este texto de Teresa de Alpuim (que teve divulgação universal nas listas da UM), apresentado num debate promovido pelo SNESup no Instituto Superior Técnico, é importante em qualquer altura, e é especialmente oportuno nestes dias que antecedem a implementação da Avaliação de Desempenho dos Docentes. Entra em profundidade no debate que importa travar, ao contrário de outros debates que não o chegam a ser, onde tudo o que é verbalizado está bem balizado nos estreitos limites da cultura institucional dominante, e muitos dos silêncios são a expressão do indizível que vai na mente das pessoas.

O número de Professores Catedráticos na UM é de 81 num total de 1153 (7%) e serão esses docentes os avaliadores. Tendo sido assinado recentemente um contrato de confiança entre a UM e o MCTES, é particularmente pertinente perguntar se a Avaliação de Desempenho dos Docentes será dentro da instituição um contrato de confiança ou um contrato de desconfiança.

O que vejo é uma generalizada inquietação e sentimento de impotência perante a avalanche avaliadora. Alguém expressava há dias o que lhe vai na alma nestes termos: “vamos passar a trabalhar com uma pistola apontada à cabeça”. As inquietações estão focadas em três aspectos essenciais: a) preocupação quanto ao futuro profissional individual; b) confusão quanto ao modo como saber conduzir-se neste novo quadro, de modo o poder “safar-se”; c) preocupação com o previsível agravamento das relações inter-pessoais (aumento de conflitualidade) e com a expectável degradação da atmosfera no contexto de trabalho.

No inquérito* que foi distribuído a todos os docentes da UM, em Maio de 2009, ao qual responderam 290 (25,1%), perguntava-se que percepção de importância têm, nas práticas da instituição, diferentes factores para efeito de progressão na carreira (escala: nada importante; pouco importante, importante, muito importante). Somadas as percentagens de importante e muito importante obtiveram-se os seguintes resultados: 1º - Actividade de investigação (89,4%); 2º- Pertença a grupos de influência (73%); 3º - Actividade de gestão (63%); 4º - Antiguidade na categoria/instituição (61,7%); 5º - Laços familiares ou de amizade (51,6%); 6º - Actividades de extensão (45,7%); 7º - Actividade de ensino (37,4%).

Naturalmente cabe perguntar se têm os docentes razões para acreditar que será de modo diferente na Avaliação de Desempenho.

Sobre a capacidade de gestão de conflitos, por parte das lideranças académicas, a soma das percentagens presente e muito presente é de 39,5% (pouco presente/nada presente: 60,5%). E na sua perspectiva pessoal, 96,7% dos docentes consideram ser importante/muito importante que as lideranças tenham essa capacidade. Ou seja, há uma percepção de conflitualidade muito acentuada e um forte desejo de que a mesma seja atenuada, por via da acção das lideranças.

Ainda sobre as lideranças académicas, apenas 39,2% consideram estar presente/muito presente o sentido de justiça no seu modo de actuação (pouco presente/nada presente: 68,4%); e 99% dos docentes consideram importante/muito importante que as lideranças actuem com sentido de justiça. Na caracterização do clima profissional, apenas 37,9% consideram estar presente/muito presente a justiça nas decisões sobre a profissão/carreira (pouco presente/nada presente: 62,1%) e 97,2% consideram importante/muito importante que haja justiça nessas decisões. Há uma forte percepção de injustiça e uma grande aspiração de que se pratique a justiça na UM, no que diz respeito às decisões sobre a vida profissional.

É neste quadro que estamos em via de avançar para aplicação da Avaliação de Desempenho, cuja proposta de regulamento em discussão, prevê a figura de recurso por parte do avaliado, quando discorde da avaliação. Todavia, nas respostas ao inquérito a que me tenho vindo a referir, apenas 27,5% consideram presente/muito presente a existência de instâncias de recurso fiáveis (pouco presente/nada presente: 72,5%); em contraste, 91,1% dos docentes considera importante/muito importante a sua existência. Esta percepção dos docentes não pode deixar de colocar em situação muito crítica a desejável credibilidade de que o recurso, no âmbito da Avaliação de Desempenho, possa efectivamente funcionar no sentido da reparação das injustiças que venham a ocorrer.

Estas são as percepções de um número muito significativo de docentes da UM, expressas na segurança e tranquilidade que o preenchimento de um inquérito anónimo garante. O seu significado é uma realidade incontornável na vida da academia, por mais esforços que se façam para reduzir a nada os sentimentos profundos das pessoas. Precisamos todos de nos compenetrar da necessidade de fazer algo para melhorar este panorama geral de insatisfação. Os decisores sobre a Avaliação de Desempenho devem interrogar-se seriamente se o passo que vamos dar vai contribuir para o agravamento desta situação. Se for essa a direcção, nada de bom poderá resultar para a vida das pessoas, para a qualidade do ensino e da investigação e para a instituição em geral. A qualidade do ensino está fundamentalmente no ser professor (é possível produzir evidências) e a qualidade da investigação é produto do pensamento e reflexão profundos.

É preciso dissipar os sentimentos que tolhem o pensamento, a criatividade e o entusiasmo das pessoas no trabalho. É necessário garantir que a selecção dos avaliadores seja muito criteriosa; deverão ser pessoas íntegras, com uma conduta académica eticamente irrepreensível aos olhos de todos. Essa é uma condição fundamental para gerar o indispensável sentimento de confiança dos docentes face ao processo de avaliação de que vão ser alvo.

*Projecto de investigação Representações da Vida Académica – um estudo na Universidade do Minho, inscrito no CIEd.

Joaquim Sá

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Fernando Nobre a Presidente da República!

Compreendo bem o "imperativo moral, de consciência e cidadania" que anima Fernando Nobre nesta sua decisão de se candidatar a Presidente da República.
http://www.publico.pt/Política/nobre-avanca-para-belem-a-margem-partidos-e-pelos-que-nao-tiveram-voz_1423561

A postura que tenho tido no meio académico e, em particular na Universidade do Minho, não é um compartimento estanque do modo como vejo a situação social e política do País: as marcas do tempo que caracterizam o país estão dentro da universidade.

Fernando Nobre diz no anúncio da sua candidatura:
“Sou contra o sufoco partidário da vida pública”…

Eu digo:
Sou contra o sufoco, a opressão e a injustiça em que muita gente vive nas universidades.

Fernando Nobre diz que:
O seu espaço político, “mais do que definido à esquerda, à direita ou ao centro” é “o da liberdade, da justiça, do humanismo, da ética, da solidariedade, da transparência na vida pública e da adequada, justa e indispensável função redistribuitiva do Estado.

Eu digo:
Há gente dita de esquerda, “democrática”, de conduta totalitária para com os seus colegas, que se constituem em grupos de poder universitário para aceder a e distribuir privilégios. O meu lugar é o de um trabalho comprometido com problemas da educação e o da luta pela liberdade de expressão e a participação académicas; é ainda o lugar da luta pela justiça, pela ética e a transparência, não em forma de palavras do que “parece bem” ser dito, mas na acção do quotidiano.

Fernando Nobre diz:
(…) ter consciência que “esta será uma batalha difícil, talvez até invencível, mas não será nunca inútil”: A luta contra a indiferença sempre foi e será a minha marca individual”.

Eu digo:
A minha postura académica e a luta que tenho travado têm sido muito duras, no plano pessoal e profissional, mas não podia ser outro o meu caminho face às cricunstâncias. Continuarei a lutar contra o conformismo e a indiferença e isso continuará a ser útil.

Fernando Nobre diz:
“É a hora de acreditar em Portugal (…) Convido-vos a todos para esse combate em nome dos nossos filhos e netos. Em nome da esperança em nome do ‘Acreditar em Portugal’”.

Eu digo:
É hora de acreditar que é possível uma universidade melhor, onde as pessoas sejam mais felizes no trabalho, e onde possam dar um contributo mais relevante para o progresso e desenvolvimento do País. Só um universidade livre e justa poderá render todo o seu potencial ao serviço da sociedade.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Uma Comissão de Ética no âmbito do Conselho Geral

Falo por experiência vivida, por conhecimento directo de outras situações e pelo que li e estudei...

O fenómeno de assédio moral ou mobbing é muito mais comum do que se pensa nas empresas e instituições, designadamente nas universidades: tem sido silenciado. Este fenómeno psico-social entre adultos não é fácil de reconhecer e compreender, nem pela vítima nem pelos que observam de fora o desenrolar dos factos. Desde logo, porque o carácter persecutório dos actos praticados contra o sujeito-alvo de assédio é negado até à exaustão, e as pessoas são manipuladas pelas versões dominantes postas a correr pelo agressor: enquanto a maldicência corre com todo o à vontade, em todos os forum em que o visado não está presente, este não imagina tal orquestração, vindo a surpreender-se mais tarde com a difamação da qual não teve qualquer oportunidade de se defender (a desproporção de meios é muito grande). Por outro lado, é muito difícil aceitar-se e admitir-se que quem goza de estatuto e poder supostamente respeitáveis, tenha os propósitos tão pouco nobres do assédio moral (mas, na verdade, a combinação de vícios privados/públicas virtudes é muito comum). E o estatuto de poder e pretensa superioridade permite o uso de uma falsa e sibilina comiseração (coitado, vejam lá... é uma pena!), para tudo ser mais convincente. Assim, facilmente se dá crédito à tese do agressor, segundo a qual os vários incidentes provocados em torno de uma determinada pessoa, “demonstram” que o problema é essa pessoa. Por outro lado, dar esse crédito, mesmo quando se tem evidência do contrário, é mais "apaziguador", quer no plano individual, quer no plano do grupo institucional que é dominado pelo agressor.

É preciso conhecer o fenómeno cientificamente para discernir com clareza e não vacilar na pressão para um juízo que interessa ao agressor (sugiro a leitura de um pequeno artigo de 9 páginas: http://www.mobbingportal.com/LeymannV&V1990(3).pdf ). Esse distanciamento não é fácil e só o fará quem não esteja sob domínio do agressor e não seja parte interessada de forma directa ou indirecta no processo de assédio. Manter o discernimento e afirmá-lo exige energia e coragem; em contraste a aceitação da versão do agressor corresponde à "ordem natural das coisas" estabelecidas. O sentimento geral é a indiferença. Há quem consiga reconhecer a injustiça de que é alvo a vítima, mas com o passar do tempo, e não se vislumbrando uma solução justa, deixa-se cair essa perspectiva, com a qual não é confortável conviver.

Quando a escalada vai subindo de intensidade e o visado não consegue discernir o que se está a passar consigo, está perdido. Porque se impõe de fora, ao assediado, um retrato negro de si próprio, que nega tudo o que ele pensa de si. A partir de dada altura já ninguém lhe devolve, no contexto de trabalho, o reconhecimento de qualidades humanas, pessoais e profissionais. No olhar, nos silêncios e nas atitudes, só lhe devolvem o retrato negro que o agressor montou e difundiu; nada do que faz tem valor algum. Isso tem um efeito psicologicamente devastador. Fica-se impotente para dar a volta a isto... é o desespero.

Por isso, eu tinha que compreender o que se estava passar, fiz pesquisas e estudei o fenómeno e consegui a partir de dada altura ter um discernimento claro. Isso foi fundamental para resistir durante tantos anos. Levantei-me uma, duas, três, quatro vezes... tentando erguer projectos e retomar uma vida académica normal, mas de todas as vezes havia um novo golpe para me derrubar. Quando depois de todas as tentativas de anulação, se lança mão de um requerimento para me submeterem a uma Junta Médica, com o propósito de que eu seja dado como desequilibrado mental, não é possível resistir mais ao impulso de extermínio nazi - a Inspecção Geral do Ensino Superior constatou a farsa, mas nada pôde fazer em nome da sagrada autonomia universitária. Depois disso, já não existem forças nem motivação, e está gravado na minha mente o condicionamento de que a um novo esforço se seguirá um novo revés.

Por isso, não sei se devo rir... ou chorar... com essa coisa da avaliação de desempenho dos docentes. Rir ... pelo ridículo de tomar a sério a aplicação dessa grelha a quem é massacrado para ser profissionalmente aniquilado; chorar.. pelas consequências dessa avaliação, levada a sério. Não sei se rir ou chorar ainda, mediante o cenário provável de essa avaliação poder ser um instrumento nas mãos de agressores, que dificultando o trabalho do assediado, vêm mais adiante, aplicar-lhe a grelha da avaliação para o declarar incompetente: uma obra-prima da PERVERSÃO.

É preciso trazer a público um problema silenciado que afecta muita gente, nestes tempos de acelerada desumanização. Há pessoas que foram varridas, outras que não aguentaram e tiveram que sair, e há muitas pessoas a serem remetidas a um canto, onde vivem em completo isolamento, em péssimas condições para a sua saúde mental, no contexto laboral. Sei-o pelo que observo, sei-o porque um número significativo de colegas trocaram comigo mensagens privadas, uns procurando ajudar-me com a sua experiência, outros pedindo conselhos e ajuda; sei-o porque me relataram as suas situações, as situções de outros e me falaram do clima profissional em que vivem. Encontrei-me pessoalmente com algumas dessas pessoas.

O Conselho Geral, que tem no âmbito das suas competências a possibilidade de adoptar iniciativas com vista ao melhoria do funcionamento da UM, deveria prestar atenção a este problema. Sugiro que o CG crie um Comissão de Ética que seja capaz de fazer um levantamento sério da situação e que proponha políticas apropriadas de remediação.

Para mais informação:
http://liberdadeuminho.blogspot.com/2008/07/sero-essas-pessoas-normais.html

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O que os agressores não conseguem imaginar!

Christophe Dejours deu uma entrevista ao Público que suscita séria reflexão sob vários pontos de vista. Apresento aqui alguns excertos acompanhados de algumas notas pessoais que emergem da experiência de assédio moral a que tenho resistido, ao longo de muitos anos. As consequências desse processo sobre mim são devastadores em todos os aspectos da minha vida.
http://www.publico.pt/Sociedade/um-suicidio-no-trabalho-e-uma-mensagem-brutal_1420732

Christophe Dejours, psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção – uma das raras equipas no mundo que estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve há dias em Lisboa, onde, […] falou do sofrimento no trabalho. Não apenas do sofrimento enquanto gerador de patologias mentais ou de esgotamentos, mas sobretudo enquanto base para a realização pessoal. Não há “trabalho vivo” sem sofrimento, sem afecto, sem envolvimento pessoal, explicou. É o sofrimento que mobiliza a inteligência e guia a intuição no trabalho, que permite chegar à solução que se procura. [Mas acrescenta] que no outro extremo da escala, nas condições de injustiça ou de assédio que hoje em dia se vivem por vezes nas empresas, há um tipo de sofrimento no trabalho que conduz ao isolamento, ao desespero, à depressão. No seu último livro, publicado há uns meses em França e intitulado Suicide et Travail: Que Faire? , Dejours aborda especificamente a questão do suicídio no trabalho, que se tornou muito mediática com a vaga de suicídios que se verificou recentemente na France Télécom.
(…)
Christophe Dejours conta que em 2006-207 Houve cinco suicídios consecutivos; quatro atiraram-se do topo de umas escadas interiores, do quinto andar, à frente dos colegas, num local com muita passagem à hora do almoço. Mas um deles – aliás de origem portuguesa – não se suicidou no local do trabalho. Era muitíssimo utilizado pela Renault nas discussões e negociações sobre novos modelos e produção de peças no Brasil. Foi utilizado, explorado de forma aterradora. (…) A dada altura, teve uma depressão bastante grave e acabou por se suicidar.

A viúva processou a Renault, que em Dezembro acabou por ser condenada por “falta imperdoável do empregador” [conceito do direito da segurança social em França], por não ter tomado as devidas precauções. Foi um acontecimento importante porque, pela primeira vez, uma grande multinacional foi condenada em virtude das suas práticas inadmissíveis. Os advogados do trabalho apoiaram-se muito nos resultados científicos do meu laboratório. O acórdão do tribunal tinha 25 páginas e as provas foram consideradas esmagadoras. Havia e-mails onde o engenheiro dizia que já não aguentava mais – e que a empresa fez desaparecer limpando o disco rígido do seu computador. Mas ele tinha cópias dos documentos no seu computador de casa. A argumentação foi imparável.

Nota pessoal: Eu, há muitos anos percebi que tinha que organizar bem a minha defesa face ao plano que se orquestrava contra mim. Tenho um imenso dossier, recheado de provas irrefutáveis, do qual fazem parte variadíssimas queixas e participações envidadas para todas as entidades internas e externas que entendi serem competentes para lhes dar o devido encaminhamento… sem consequências; um argumento recorrente para nada se fazer tem sido a famigerada "autonomia"... da universidade, da escola, do departamento. Os prevaricadores continuam cínicos na sua impunidade.

Público: Mas o assédio no trabalho é novo?
C.D. Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador – é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição – a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco. Aí é que se torna difícil sair do poço, sobretudo para os que gostam do seu trabalho, para os mais envolvidos profissionalmente.

Nota pessoal: Por experiência própria, eu posso testemunhar que é exactamente assim; é terrivelmente doloroso ver quase toda gente fugir... Isso é orquestrado de forma a poder-se difundir um argumento adicional: é ele o problema e não todos os outros. Deixei de suportar estar no meu gabinete de trabalho (os comentários e gargalhadas de escárnio eram insuportáveis), refugiei-me em casa e finalmente pedi para mudar de gabinete para outra área. Foi a natureza do meu trabalho e o empenho que nele eu pus que ameaçou poderes instalados e colocados no lugar errado. Eu investiguei os processos de aprendizagem das crianças trabalhando com elas, na sala de aula, durante muitas centenas de horas. Quantos universitários da educação o fazem? Em variadas publicações tenho dado testemunho do fascínio que sobre mim exercem o potencial criativo e de aprendizagem das crianças e tenho sublinhado quão pouco lhes é dado aprender face ao muito que está ao alcance delas[ http://geniociencia.blogspot.com/ ].

Público: Qual é o perfil das pessoas que são alvo de assédio?
C.D. São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são frequentemente pessoas muito honestas (…). Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, (…) recusam-se a fazê-las. (…) E em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas não dizem nada, já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e algo ingénuo continua a falar. Não devia ter insistido. E como falou à frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos quão impensável é dizer abertamente [certas] coisas…

Um único caso de assédio tem um efeito extremamente potente sobre toda a comunidade de uma empresa. Uma mulher está a ser assediada e vai ser destruída, uma situação de uma total injustiça; ninguém se mexe, mas todos ficam ainda com mais medo do que antes. O medo instala-se. Com um único assédio, consegue-se dominar o colectivo de trabalho todo. Por isso, é importante, ao contrário do que se diz, que o assédio seja bem visível para todos. Há técnicas que são ensinadas, que fazem parte da formação em matéria de assédio, com psicólogos a fazer essa formação.

Nota pessoal: É evidente que acredito muito no meu trabalho; é evidente que nunca fui cúmplice com o que repugnava à minha deontologia científico-académica. Eu teria que renunciar a tudo aquilo em que acreditava de forma convicta e isso era anular-me, não o podia fazer. É evidente que a forma como tenho sido tratado serviu de “exemplo” para muita gente. O medo de uns e o corporativismo de outros, no topo da hierarquia, deixou campo aberto para que tudo pudesse acontecer. Foi até possível que, há cerca de um ano, uma directora apresentasse um requerimento, que foi enviado para a Inspecção-Geral do Ensino Superior, para me submeterem a uma Junta Médica para que eu fosse dado como desequilibrado mental. A Inspecção fez as suas averiguações e nem deu importância a solicitação tão sórdida, mas perante a minha indignação pelo “diagnóstico” gratuito, foi-me sugerido que no final consultasse o processo e poderia extrair cópias para me defender noutras instâncias. Desloquei-me a Lisboa e foi o que fiz. Alguém consegue imaginar o sofrimento psicológico a que está sujeita uma pessoa que é rotulada de "louco", como expediente para ser eliminado profissionalmente, e ver esse processo assumir foros de uma acção institucional?

Público: Voltando ao perfil do assediado, é perigoso acreditar realmente no seu trabalho?
C.D. É. O que vemos é que, hoje em dia, envolver-se demasiado no seu trabalho representa um verdadeiro perigo. Mas, ao mesmo tempo, não pode haver inteligência no trabalho sem envolvimento pessoal – sem um envolvimento total. Isso gera, aliás, um dilema terrível, nomeadamente em relação aos nossos filhos. Se as pessoas se suicidam no trabalho, não podemos dizer aos nossos filhos, como os nossos pais nos disseram a nós, que é graças ao trabalho que nos podemos emancipar e realizar-nos pessoalmente.

Nota pessoal: Nunca vi ninguém profissionalmente desleixado, encostado ao poder ter qualquer problema. Pelo contrário, tenho visto gozarem de favores a troco de serem mais uma espingarda apontada ao “inimigo”. Só quem não acredita e não se entusiasma com o que faz pode desprender-se da ética inerente ao seu trabalho, para se deixar instrumentalizar ao serviço dos desígnios de poder de um chefe. Mas é trágico que o apego e a paixão por um trabalho sejam a armadilha que nos coloca à mercê de um tratamento humano ignóbil.

PS. Acho que me equivoquei no título deste post... O cidadão comum não consegue... mas os agressores conseguem imaginar o sofrimento que causam, pois procuram esse resultado deliberadamente. Têm é uma friesa e insensiblidade que os habilita para esse "trabalho".


Ver ainda:

http://liberdadeuminho.blogspot.com/2008/07/sero-essas-pessoas-normais.html


http://liberdadeuminho.blogspot.com/2009/03/podem-passar-mil-anos.html