quarta-feira, 22 de abril de 2009

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO: cinco departamentos

A Assembleia Estatutária do Instituto de Educação deu por concluídos os seus trabalhos, esperando-se agora a homologação da proposta de Estatutos. No artigo 25º, nº 2, os Estatutos do novo Instituto contemplam 5 departamentos:

a) Ciências Integradas, Metodologias e Supervisão Pedagógica;
b) Ciências Sociais da Educação;
c) Estudos Curriculares e Tecnologia Educativa;
d) Psicologia da Educação e Educação Especial;
e) Teoria da Educação e Educação Artística.

Um dos aspectos sobre os quais não se tinha criado um consenso prévio aos trabalhos da Assembleia Estatutária, nem após a audição promovida pela Assembleia já em funções, era o da eventual fusão do Departamentos de Metodologias de Ensino (DME) e do Departamento de Ciências Integradas e Língua Materna (DCILM) num único departamento. Ao decidir a criação do departamento de Ciências Integradas, Metodologias e Supervisão Pedagógica, a Assembleia Estatutária resolveu o diferendo no sentido da fusão daqueles departamentos.

A AE decidiu bem, contrariando a pretensão de certas pessoas em manterem como território fechado, um departamento que tem sido dirigido como se de uma propriedade privada se tratasse, com recurso à intimidação, à prepotência e outros abusos.

A AE decidiu bem, em conformidade com os princípios orientadores que preconiza para o novo Instituto de Educação, designadamente:

a) dignidade e integridade da pessoa e do seu desenvolvimento ético, cultural, científico, artístico, profissional, social e político;
(…)
b) igualdade, respeito pela diversidade, participação democrática, direito à informação, pluralismo de opiniões e de orientações;
(...)
e) cultura de qualidade, fundada na responsabilidade e na prevalência do interesse geral;
(…)
g) colegialidade, solidariedade universitária e bem-estar;

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Indicadores de academic moobbing!

Kenneth Westhues, sociólogo canadiano que tem investigado o academic mobbbing [assédio moral na academia] criou uma check-list de 16 indicadores para se reconhecer a ocorrência do fenómeno. São os seguintes:

1. O sujeito, que é alvo de moobing, situa-se pelo menos ao nível da média ou provavelmente acima da média, do ponto de vista do seu desempenho profissional.

2. Sobre o sujeito correm boatos e rumores sobre a sua suposta má conduta.

3. O sujeito não é convidado, não é indicado para grupos de trabalho ou o exercício de cargos - é excluído ou exclui-se ele próprio.

4. Um incidente crítico é motivo para um enfoque de grupo para sublinhar “a espécie de sujeito que ele/ela é realmente”.

5. Há uma partilhada convicção de que o sujeito merece algum tipo de punição institucional para “aprender a lição”.

6. O momento da decisão da punição é despropositado, incompreensível – há critérios de cálculo que só os decisores conhecem.

7. O sujeito é alvo de comentários com forte carga emotiva e difamatória, em forma de comunicações orais e escritas.

8. O sujeito é alvo da expressão formal de sentimentos colectivos de reprovação, tais como voto de censura, abaixo-assinado ou petição, reunião para discutir o que fazer com ele/ela.

9. Há um elevado secretismo, confidencialidade, e colegial solidariedade entre os mobbers [agressores].

10. No contexto de trabalho torna-se perigoso dar razão ao sujeito ou defendê-lo – isso conduz à destruição da liberdade e da diversidade de pontos de vista.

11. Há um coleccionar dos reais ou imaginados “pecados” do sujeito, em termos de em certo momento concluir-se que é preciso dizer “basta” – "é preciso fazer qualquer coisa".

12. O sujeito é apontado como pessoa perigosa, sem possibilidades de se redimir; é rotulado em termos estigmatizantes e repulsivos.

13. Apesar das regras e procedimentos institucionalmente estabelecidos, os mobbers tomam o “problema” nas próprias mãos, aplicando ao sujeito as regras da sua própria conveniência.

14. Os mobbers opõem forte resistência a qualquer forma de avaliação externa e independente das sanções aplicadas ao sujeito.

15. Os mobbers ficam furiosos face a qualquer tipo de reclamação ou pedido de ajuda exterior que o sujeito possa fazer.

16. Os mobbers temem acções violência do sujeito, o sujeito teme acções de violência dos mobbers, ou ambos ocorrem.

Segundo Konrad Lorenz, Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia, em 1973, e fundador da etologia, o mobbing entre as aves e os animais em geral, é um fenómeno motivado por instintos de sobrevivência. É muito comum entre as galinhas o facto de rejeitarem uma nova galinha que acaba de chegar - é uma ameaça para o grupo. Cada uma das que já estavam no galinheiro ataca a recém-chegada à bicada e mantém-na afastada da comida e da água. Cada bicada isoladamente não causa grande ferimento, mas o seu efeito cumulativo conduz à morte.

Segundo o mesmo autor, os humanos estão também sujeitos aos instintos inatos que engendram o mobbing, dispondo porém da faculdade de os submeter a um controlo racional. Mas parece que nem sempre conseguem…

domingo, 12 de abril de 2009

Faculty Incivility - livro apresentado em vídeo

Veja a apresentação em vídeo por uma das autoras:

http://bulliedacademics.blogspot.com/2009/03/faculty-incivility-darla-twale-phd.html

FACULTY INCIVILITY, The rise of the academic bully culture and what to do about it. Authors: Twale, D. J. & De Luca, B. M. (2008).

This important book addresses the prevalence of faculty incivility, camouflaged agression, and the rise of an academic bully clture in higher education. The authors show how to recognize a bully cluture that may form a result of institutional norms, organizational structure, academic culture and systemic changes. Filled with real-life examples, the book offers research-based suggestions for dealing with this disruptive and negative behavior in the acadenic workplace.

sábado, 11 de abril de 2009

Denunciar, Responsabilizar, Fiscalizar!

[Excerto de um diálogo por email com colega devidamente identificado(a)]

O objectivo que considero, neste momento, ser o mais urgente é apelar junto da academia para que os mecanismos legais sejam desencadeados e postos em funcionamento, por via interna ou externa, no sentido de pôr fim a ilegalidades e injustiças. Quando este tipo de suspeita recai sobre uma organização só uma auditoria ou inspecção externa e independente, comunicada a todos os intervenientes, poderá dar resultados.

O que interessa neste momento é denunciar, fiscalizar e responsabilizar. A intenção não deve ser apenas pedagógica, não se deve 'ajudar' os verdadeiros responsáveis a melhorar as suas competências ou a redimirem-se dos seus erros (já tiveram a sua oportunidade), mas contribuir para que eles sejam responsabilizados e eventualmente destituídos das suas funções, sendo substituídos por pessoas idóneas e capazes.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O assédio moral nas universidades: uma disciplina científica

Kenneth Westhues é Professor de Sociologia na Universidade de Waterloo, Canadá, sendo um dos seus principais domínios de investigação científica o academic mobbing, expressão que, em português, se aproxima do significado de assédio moral nos meios académicos. Dos vários livros sobre esta matéria, publicados por Kenneth Westhues, são especialmente elucidativos os seguintes títulos:

- Workplace Mobbing in Academe: Reports from Twenty Universities.
- The Envy of Excellence: Administrative Mobbing of High Achieving Professors
- Eliminating Professors: A Guide to the Dismissal Process
(uma sátira)

Existem diferentes terminologias para designar esta problemática, nomeadamente: assédio moral, em Portugal e no Brasil; mobbing nos países nórdicos, na Suiça, na Alemanha e na Itália; harassment ou mobbing nos Estados Unidos da América; ijime, no Japão; acoso moral em Espanha; bullying, na Inglaterra; harcèlement moral, na França.

Uma pesquisa na Internet com as palavras-chave “academic mobbing” ou “academic bullying” permite-nos subitamente tomar consciência de um fenómeno humanamente corrosivo no seio das universidades, que é amplamente objecto de investigação científica, contrariamente ao que se imagina em Portugal. Aí se encontram igualmente testemunhos, relatados na primeira pessoa, de académicos que viram as suas vidas devastadas pelo fenómeno de mobbing, de que foram vítimas.

O conceptualização do assédio moral no trabalho como matéria de interesse científico deve-se a Heinz Leyman (1932-1999), psicólogo alemão que desenvolveu os seus trablhos na Suécia, tendo para o efeito cunhado o termo mobbing. Segundo Messias Carvalho “a palavra 'mobbing' deriva do verbo inglês 'to mob' que, em português, significa atacar, maltratar, tratar mal alguém, cercar, rodear, … O substantivo 'mob', donde deriva o verbo, significa populaça, gentalha, turba, ralé… “

Segundo Leyman (1990):

Psychical terror or mobbing in working life means hostile and unethical communication which is directed in a systematic way by one or a number of persons mainly toward one individual. (…) These actions take place often (almost every day) and over a long period (at least for six months) and, because of this frequency and duration, result in considerable psychic, psychosomatic and social misery.

Entre vários dos efeitos do mobbing sobre as vítimas, o mesmo autor refere:

Psychological: A feeling of desperation and total helplessness, a feeling of great rage about lack of legal remedies, great anxiety and despair.

Psychosomatic and psychiatric: Depressions, hyperactivity, compulsion, suicides, psychosomatic illness. There are suspicions that the experiences deriving from this social situation have an effect on the immune system (one company physician observed a couple of "mysterious" cases of cancer).

Tais fragilidades permitem aos mobbers (agentes de mobbing - agressores) a acção perversa de tentarem capitalizar a seu favor os danos que conseguem causar sobre os mobbed (vítimas de mobbing), apontando os seus problemas de saúde e as dificuldades de desempenho profissional como a “prova” de que todo o problema reside neles. O que é preciso então é a “solução final”: eliminá-los. Segundo Davenport, Schwartz, e Elliot (1999) o objectivo final do mobbing é de facto “dominar, subjugar e eliminar”. Os meus aturados "estudos" sobre esta matéria não me deixam a mais pequena dúvida sobre a verdade do que afirmam estes autores.

E se aquele que é alvo de mobbing, alega em sua defesa os danos que lhe estão sendo causados, em consequência da violência psicológica a que está sujeito, aponta-se-lhe de novo o dedo acusador: com escárnio e desprezo diz-se-lhe que se vitimiza como justificação para as suas fraquezas. Na perspectiva desta teoria, os sobreviventes dos campos de concentração nazi seriam poibidos de relatar os horrores por que passaram: não seriam vítimas, estariam a fazer-se de vítimas. Mas, pior do que uma simples teoria estúpida, do que se trata é de uma acção que tende a fazer a vítima acreditar que tudo o que possa fazer em sua defesa se volta contra contra si própria, que está cercado por todos os lados, e que não há outro caminho que não seja deixar-se desfalecer no silêncio.

Títulos como A Inveja da Excelência: o Ataque dos Dirigentes a Professores de Elevado Mérito... não podem deixar de nos arrepiar. E quantas vezes os mobbers usam o discurso da Excelência, do supremo Bem das instituições/departamentos, para legitimar as suas agressões? Discurso falacioso da cultura de pensamento único! Os especialistas demonstram de forma bem fundamentada os enormes prejuízos que resultam do fenómeno de mobbing para as organizações e a sociedade.

Alguns links sobre academic mobbing:

domingo, 5 de abril de 2009

António Damásio: duas ideias para uma Universidade Inteligente!

Da entrevista do ilustre neurocientista português, radicado nos Estados Unidos, António Damásio, a Judite da Sousa, na RTP1, na quinta-feira passada, retenho duas ideias importantes (cito de memória):

1 - Para a Natureza é indiferente que o Homem pratique o Bem ou o Mal. Porém, o desenvolvimento dos estudos sobre a consciência humana, que as neurociências estão hoje em condições de prosseguir e aprofundar, cria a possibilidade de uma evolução da espécie humana numa direcção em que o bem-estar de cada ser humano será indissociável do bem-estar do outro.

Comentário:

Pela mão das conjecturas da Ciência somos reconduzidos à dimensão do Transcendente. Na linha do tempo de uma tal perspectiva de evolução humana, os poderes que hoje promovem o mal-estar das pessoas dentro da sua esfera de influência situam-se porventura na idade das cavernas.

2 – O que mais aprecio nos Estados Unidos, na Universidade onde trabalho, não são os meios e a sofisticada tecnologia de investigação; essa está hoje disseminada por todo o mundo desenvolvido. O mais importante é a oportunidade do diálogo inteligente com os meus colegas – esse é o factor mais decisivo para dar resposta aos problemas e avançar.

Comentário:

O bullying académico (Twale. D. J. & De Luca, 2008) só pode ser o grau abaixo de zero do diálogo inteligente. Este fenómeno é uma realidade que assume uma expressão cada vez mais acentuada, mas permanece ainda um assunto tabu, especialmente em Portugal. O bullying não é um problema exclusivo de crianças, adolescentes ou jovens nas escolas básicas e secundárias; é um problema sério no seio da comunidade de docentes universitários.

É pois oportuno que o Departamento de Metodologias de Ensino (DME), numa sua reflexão sobre a constituição de um novo departamento, no âmbito do processo de reestruturação do IEC e do IEP, com vista ao novo Instituto de Educação, preconize o seguinte princípio de funcionamento: deve zelar, na sua organização e acção, pela criação de um clima de satisfação e bem-estar profissional, promovendo a participação dos seus membros nos processos de decisão.

Referência:

Twale, D. J. & De Luca, B. M. (2008). Faculty Incivility. The rise of the academic bully culture and what to do about it. San Francisco: John Wiley & Sons, Inc.

segunda-feira, 30 de março de 2009

PODEM PASSAR MIL ANOS...!

Na sequência de incidentes do costume... (desta vez, desde 22 de Outubro de 2008), - que me levaram a ficar sem condições físicas e psíquicas para trabalhar, e tornaram insuportável a minha permanência no local de trabalho - vi-me recentemente forçado a recorrer à baixa-médica por cerca de um mês. Esta situação tem a ver com a sistemática obstrução a projectos académicos que tento concretizar. Podem passar mil anos, mas eu jamais aceitarei viver na Universidade do Minho submetendo-me a esta prepotência - é estranho que seja tão difícil entender-se que negar o pensamento é uma forma de mutilação da existência.

Está em curso um novo Inquérito da Inspecção Geral da Ciência e Ensino Superior na UM. Nas presentes circunstâncias considerei oportuno reeditar o seguinte texto:

LIBERDADE DE CRIAÇÃO: O ANTÍDOTO PARA O NOSSO ATRASO!

No dia 1 de Janeiro de 2008, dava eu a conhecer este blog a toda a academia minhota, movido pelo irreprimível impulso pessoal de afirmar o direito à Liberdade na Universidade do Minho.Não é de Liberdade em abstracto que eu falo, mas, desde logo, da Liberdade de eu próprio realizar um trabalho académico de profundo comprometimento com a transformação da qualidade de ensino no 1º ciclo do Ensino Básico, iniciado há duas décadas (ver blog aqui ao lado: http://geniociencia.blogspot.com/ ). A realidade educativa por mim conhecida no terreno das escolas, uma realidade parada no tempo, (à luz do que tinha sido há 30 anos a minha instrução primária), e, em contraste, a fascinante descoberta dos caminhos de um processo educativo fecundo e transformador, vivido com as crianças, impeliram-me na direcção de um trabalho apaixonado. E aí permaneci, tendo mais tarde compreendido melhor o que se passava comigo, ao ler Karl Popper:

(...) penso que só há uma caminho para a ciência ou para a filosofia, (...): encontrar um problema, ver a sua beleza e apaixonar-se por ele; casar e viver feliz com ele até que a morte vos separe - a não ser que encontrem um outro problema ainda mais fascinante, ou, evidentemente, a não ser que obtenham uma solução. Mas mesmo que obtenham uma solução, poderão então descobrir, para vosso deleite, a existência de toda uma família de problemas-filhos, encantadores ainda que talvez difíceis, para cujo bem estar poderão trabalhar com um sentido, até ao fim dos vossos dias. (Popper, 1989: 219).

E os sucessivos resultados dos estudos internacionais em literacia matemática, na língua e em ciências (colocando-nos sempre à volta do 30º lugar, num conjunto de cerca de 40 países), impunham em mim uma demanda maior nesse imperativo de consciência cívica que me impelia para a acção. Sim, porque também é possível as pessoas moverem-se por um princípio ético de compromisso com o interesse geral da comunidade a que pertencem. Todavia, uma surpreendente adversidade, metódica e sistemática, se opunha à realização de projectos e concretização de ideias, umas vezes por baixo da mesa, outras vezes de forma brutal, com graves sequelas para a minha saúde. Vinte anos de resistência a acções persecutórias, sem a qualquer acção institucional, perante dezenas de queixas, participações e apelos, está para além das forças de qualquer ser humano. Comecei então a tentar compreender o que se passava para lá das explicações mais visíveis e imediatas.

Confesso que durante muitos anos recusei a ideia de sermos um povo dotado de uma idiossincracia que nos diminui face aos restantes povos europeus. Recusava essa ideia com a mesma intensidade com que me entregava à realização do meu melhor em prol da educação. Todavia à medida que os anos de vida académica iam passando, essa minha convicção foi-se desvanecendo.

Havia que compreender por que motivo se fechavam as portas a projectos que, na minha boa-fé, tinham como motivação um sério comprometimento com o interesse público, designadamente a educação nos primeros anos de escolaridade?; por que motivo garantias de apoio, falhavam mais adiante, sem explicação?; por que motivo me confrontava com pareceres, uns capciosos, outros fraudulentos?; por que motivo se movem forças destrutivas de cada vez que estou tranquilo com uma trabalho relevante em mãos?; e por que motivo incentivos e apoios entusiásticos expressos, primeiro por escrito e depois no gabinete da 5 de Outubro, ao nível de Ministro da Educação ("rentabilizar este potencial da Universidade do Minho" - expressão utilizada na altura), vêm depois a ser sabotados, mais abaixo na hierarquia ministerial?

A primeira coisa que se tornou claro para mim foi que realizar um trabalho à margem da cultura educacional dominante era "inconveniente" e incómodo. Para entender melhor o fenómeno comecei a interessar-me mais pela História de Portugal e pela Filosofia. Em José Gil vejo que a noção de interesse público, como parte integrante do ser-se cidadão, é coisa escassa entre nós; é por isso que os poderes de pequenas figurinhas avaliam ideias e projectos, não em função do seu alcance social, mas em função de como interferem com o seu estatuto, prestígio e poder. Vejo com uma impressionante nitidez a forma como os poderes mesquinhos conflituam com o interesse geral.A Inquisição fez de Portugal um Estado religioso policial que perseguia ferozmente qualquer assomo de liberdade, quer do ponto de vista religioso (eventuais simpatias pelo movimento da Reforma Protestante), quer do ponto de vista político - os reis transformou-os a Igreja Católica em déspotas imorais, por via do Concílio de Trento (Antero de Quental).

Assim medrou entre nós a tradição e a “legitimidade” de marginalizar, ostracizar, perseguir e aniquilar pessoas de pensamento independente, desalinhadas de um sistema de poder vigente, bem como da cultura de que se alimenta esse sistema de poder [ ...numa acta, de 1990, ... - é extraordinário!].

Nesse caldo de cultura, os que prevaricam estão sempre lavados, branqueados ... Nada se inscreve, como diz o filósofo José Gil; ó isso já foi há muito tempo, costuma dizer-se, e pronto, não se fala mais no assunto. A lei não se aplica e o tempo limpa tudo na memória curta, fenómeno que se impõe pela necessidade de se anestesiar o desconforto moral das consciências. Ao injustiçado aponta-se facilmente o "defeito" de estar agarrado ao passado: que olhe em frente, diz-se. Mas, como olhar em frente se o tão esperado virar de página não acontece nunca, por mais esforços que se façam para arrancar a mágoa das entranhas e por melhor boa-vontade que se demonstre? Enganados ou enganosos conselhos esses! Não, o que a dolorosa experiência ensina é que a impunidade inscreve no futuro a continuação do passado de agressão e de injustiça.

Como os meus já sedimentaos 53 anos de idade, 20 dos quais na carreira académica (no meu percurso profissional há mais mundo para além da Universidade), eu aprendi que um determinado trabalho académico, feito com honestidade e sincera dedicação, pode gerar verdadeiro pavor em certas pessoas. E que esse pavor põe em marcha forças davastadoras inimagináveis, que se movem em surdina, de forma dissimulada, que raramente se mostram às claras. E aprendi que, na Universidade tão repetidamente dita humanista, a vida de um ser humano não vale um pataco furado, aos olhos de certas formas de exercer o poder universitário.Tudo isto convive na perfeição com a democracia formal das instituições e do país, e com o nosso Estado (dito de) Direito.

Os resultados de tudo isto são a tendência para o servilismo face aos poderes, a ausência de pensamento crítico e de ideias livres, a idolatria de pseudo-intelectuais, o imobilismo que faz do futuro a perpetuação do passado – e tudo isto é afinal o nosso atraso cultural, científico, económico e social. (A este propósito recomendo vivamente a leitura de Antero de Quental, 2008: Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, com prefácio de Eduardo Lourenço).

É contra esta fatalidade de vivermos imersos num espesso nevoeiro - que nos tolda a visão nos sufoca as energias renovadoras -, feito de lamúria, medo, inveja, ciúme, falta de acção e audácia, que os espíritos livres devem erguer bem alto as suas vozes. E neste meu apelo estou certo de expressar o sentimento de milhares de pessoas que trabalham nas universidades portuguesas.

Ver Poderes e Estagnação Educacional no 1º Ciclo do Ensino Básico em http://www.portaldacrianca.com.pt/artigosa.php?id=74