segunda-feira, 30 de junho de 2008

DE VENTO EM POPA PARA O “SUCESSO” ESCOLAR - o ilusionismo que nos amarra ao atraso endémico


A minha filha fez exame de Matemática A do 12º ano. Preparou-se intensamente de tal modo que eu achei por bem recomendar-lhe, por várias vezes, que fosse para a rua arejar um pouco. Ao chegar a casa, depois do exame (23/06/08), disse-me que esperava tirar 20, mas antes que eu rejubilasse com a notícia, logo acrescentou que a prova era muito fácil, que uns 3 ou 4 colegas também esperavam tirar 20, que não havia nenhuma questão que distinguisse aqueles que estudaram razoavelmente a matéria daqueles que pudessem ir “um pouco mais além”, que tinha feito em três horas um exame que nos testes da escola se faz em 90 minutos, que tinha feito calmamente o exame por duas vezes e concluiu, com frustração, que “para isto não precisava de se ter matado a estudar”. No dia do exame à tarde, no Público on-line, alunos do Colégio Valsassiana, (sempre bem colocado nos ranking das escolas), davam testemunhos que iam no mesmo sentido.

Ora, todos os professores têm a noção de que a tendência natural dos alunos é queixarem-se das dificuldades das provas que vão realizando ao longo do seu percurso escolar, mesmo quando honestamente reconhecem que o esforço de superação das dificuldades é da natureza de qualquer processo de aprendizagem. Portanto, quando há alunos que se manifestam frustrados por considerarem demasiado fácil um determinado exame nacional, da responsabilidade do Ministério da Educação, manda o bom-senso que os tomemos a sério e que se tenha na conta de um aviso o sentimento de injustiça que manifestam, face a uma prova que não lhes reconhece o mérito e o esforço.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Matemática, "a prova comporta um grande número de questões de resposta imediata e elementar, não aferindo conhecimentos matemáticos importantes (...). Confirma-se a tendência já patente no exame nacional do 9 ºano, da semana passada, em propor exercícios que correspondem aos primeiros exemplos usados para introduzir as noções." E acrescenta: “O padrão utilizado pelo G.A.V.E. para avaliar o desempenho dos alunos não permite distinguir aqueles que efectivamente trabalham dos que pouco trabalham, e não ajuda os professores a incentivarem os alunos a aprofundar os seus conhecimentos.”

Concordo que esta orientação encerra em si uma mensagem indutora de uma dupla desmotivação: a dos alunos para o esforço de um sucesso efectivo e a dos professores para promoverem esse esforço nos alunos. Motivar os alunos para o esforço de um trabalho exigente é cada vez mais complexo e difícil.

No actual panorama de desânimo e impotência que reina entre os professores, os sinais que são dados no sentido da desresponsabilização em relação ao essencial “liberta-os” para a burocracia e o controlo a que estão sujeitos nas escolas. E quem na sua integridade profissional não é capaz de fazer essa opção, inquieta-se, divide-se entre a sua consciência e a pressão externa, enfim, sofre. (Um dos traços mais marcantes da actual conjuntura da política educativa é o risco de degradação da identidade profissional dos professores.)

Segundo a Sociedade Portuguesa de Química, no exame de Física e Química A do 11º ano há questões demasiado elementares que "exigem apenas que o aluno saiba ler um texto ou os eixos de um gráfico", não precisando "sequer de ter grandes competências a nível da interpretação".

A tudo a Sra. Ministra da Educação responde que é demagogia, que certas pessoas acordam pela manhã mal dispostas e se lembram de dizer que os exames são excessivamente fáceis. Regozija-se com os 90 % de alunos com positiva a Português e 82 % com positiva a Matemática, apontando-os como consequência das políticas seguidas pelo Governo, que terão permitido enorme recuperação. Para as tais provas de Português e de Matemática, recomenda a Directora Regional do Norte que não sejam corrigidas por professores que dão notas “fora da média” [leia-se abaixo da média], porque “os alunos têm direito ao sucesso”.

A fórmula para o sucesso não é pois a competência dos professores e o trabalho dos alunos. O sucesso é um direito universal, tendencialmente garantido a todos por igual. E a nova fórmula para o sucesso são os exames com um grau de dificuldade adequado ao "sucesso" e critérios de correcção em conformidade.

Não sei se a Ministra da Educação já tem preparado o discurso quando vierem a público os resultados do próximo estudo PISA, que avalia os jovens de 15 anos em literacia em matemática, em língua materna e em ciências. Aí não será o ME a fazer as provas, nem há margem para "adequar" os critérios de correcção - isso será um sério obstáculo ao sucesso.

Se pudéssemos tomar a sério a teoria do sucesso que vem ganhando terreno, seria de esperar uma grande “recuperação” dos alunos portugueses, no próximo estudo internacional de literacia. Mas, bem podemos esperar sentados: nada de parecido acontecerá. Afirmo sem qualquer hesitação que continuaremos bem no fundo da escala, no conjunto de cerca de 30 países.

Não tenho vocação para profeta da desgraça. Afirmo-o com o conhecimento que tenho da realidade e com o conhecimento dos processos de transformação da realidade educativa que promovo e investigo.

Desculpem caros leitores a presunção desta minha certeza… Concedam-me antes o benefício de admitirem que me move a ambição e a convicção de que é possível sairmos do fundo do poço, em termos da qualidade das aprendizagens das nossas crianças e jovens.


PS.:
Ao nível da UM espero bem que a taxa de sucesso escolar acima dos 75% prevista no QUAR (Quadro de Avaliação e Responsabilização) não me imponham a desresponsabilização, obrigando-me, porventura, a baixar ainda mais a bitola dos meus critérios de avaliação. Não tenho aspirações a ganhar o prémio da "Responsabilização" deste novo paradigma do sucesso estatístico.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

POR UMA UNIVERSIDADE QUE NOS ENGRANDEÇA

O Grupo de Reflexão sobre a Universidade do Minho (GRUM), tendo acompanhado, desde o primeiro momento, o processo de elaboração dos estatutos da Universidade, oportunamente manifestou a sua preocupação quanto aos termos em que o debate estatutário vinha decorrendo e à ambição posta na reformulação da estratégia da Instituição e do seu modelo de organização e de governo.


Empenhados que estávamos em contribuir para o estabelecimento de um modelo de governação da Universidade do Minho que a qualificasse e a projectasse nacional e internacionalmente, manifestámos a nossa convicção, ditada pelas vivências pessoais e pela reflexão mantida, de que reformar a Universidade era mais que fazer a simples acomodação das estruturas e modelo de governação existentes ao que aparecia disposto no RJIES.


Em particular, sendo nosso entendimento de que o Conselho Geral era(é) uma peça essencial para o sucesso da reforma em curso, empenhámo-nos em ver consagrados nos estatutos da Universidade os instrumentos que lhe assegurassem relevância estratégica e um funcionamento ágil.


Terminada que está a elaboração dos estatutos, apraz-nos constatar a utilidade da nossa intervenção, com expressão no acolhimento final pela Assembleia Estatutária de alguns dos princípios que emergiram na reflexão que animámos, nomeadamente no que se refere ao número de membros do Conselho Geral, e a alguma flexibilidade organizacional e eficiência na gestão de recursos supostamente visadas, atentos ao que aparece enunciado nos estatutos propostos para homologação.


Empenhados que estivemos e estamos no sucesso da reforma do ensino superior nacional, só ainda esboçada, e no sucesso da Universidade do Minho, em particular, entendemos entretanto que esta não é a hora de abandonar o debate e o labor em favor de uma Universidade renovada na sua forma de funcionamento e nos seus desígnios em termos de oferta de formação, de produção de conhecimento científico e tecnológico e de interacção com o meio, nas dimensões extensão universitária e animação cultural. Essa acção far-se-á fora do contexto deste Grupo de reflexão, que esgotou as virtualidades que estiveram na base da sua criação.


É para este labor e para a construção deste projecto de afirmação da Universidade do Minho que, nesta hora, nos atrevemos a convocar a comunidade académica minhota.


Catarina Serra; Carlos Couto; Clara Oliveira; Eduarda Coquet; Fernando Castro; Francisco Macedo; J. Cadima Ribeiro; Jaime Rocha Gomes; Joaquim Neves; Nuno Neves; Vasco Eiriz

Mensagem distribuída na rede electrónica da UM em 20/06/08


Comentário:


Onde impera a Liberdade o debate e o pensamento crítico são a seiva que alimentam uma comunidade viva - são por isso desejados e estimulados por aqueles que exercem a liderança. Não sendo esse o caso, ser protagonista do exercicio crítico e do debate no seio da UM é uma difícil aventura. Bem haja pois todos aqueles que conseguem manter vivo o espírito de participação desinteressado.

sábado, 7 de junho de 2008

Novos Estatutos UM: denominação das unidades orgânicas

Artigo 70.º(Enumeração e denominação das unidades de ensino e investigação)


1. Existem na Universidade as seguintes unidades de ensino e investigação:
a) Escola de Ciências;
b) Escola de Engenharia;
c) Instituto de Educação;
d) Instituto de Letras e Ciências Humanas;
e) Instituto de Ciências Sociais;
f) Escola de Economia e Gestão;
g) Escola de Direito;
h) Escola de Ciências da Saúde;
i) Escola de Arquitectura;
j) Escola de Psicologia;
k) Escola Superior de Enfermagem.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A designação da nova unidade orgânica IEP/IEC: proposta da Assembleia do IEC

Fundamentação da escolha, em Assembleia de Instituto, da proposta de designação da nova unidade orgânica resultante da reestruturação do IEC e do IEP:

INSTITUTO DE EDUCAÇÃO E DE ESTUDOS DA CRIANÇA

A Assembleia do Instituto de Estudos da Criança, reunida no dia 30 de Maio de 2008, pronunciou-se maioritariamente sobre a escolha do nome da nova unidade orgânica, com base nos seguintes considerandos:

1. A nova unidade orgânica emerge da fusão de duas escolas anteriormente existentes, em situação de paridade. A nova escola da UM, resultante da integração do Instituto de Estudos da Criança e do Instituto de Educação, representa a aposta da Universidade numa escola forte, que se pretende de referência ao nível nacional e internacional, fazendo convergir o património académico e identitário construído por ambos os institutos, ao longo dos seus anos de funcionamento, traduzido nos seus projectos de ensino, de investigação e de extensão em diferentes domínios científicos.

2. O Instituto de Estudos da Criança não é uma escola estritamente de educação. Se o IEC nasceu em torno de um projecto de formação de educadores e professores da educação básica, o seu desenvolvimento, ligado à auscultação das solicitações sociais, à emergência de novas áreas académicas, à competência construída dos seus docentes e investigadores, assim como aos requisitos epistemológicos do seu objecto de estudo – a criança – traduziu-se numa expansão de áreas de investigação/intervenção que transcendem o campo da educação.

Para além das áreas científico-pedagógicas directamente relacionadas com a educação e a formação de educadores/professores, o IEC tem uma procura e uma oferta consolidada e amplamente reconhecida a nível nacional e internacional, no campo interdisciplinar dos Estudos da Criança, em âmbitos tais como: as políticas sociais para a infância, a intervenção psico-social (pobreza infantil, trabalho infantil, protecção de crianças em risco), a saúde infantil e bem-estar, o lazer e tempos livres, os estudos artísticos, a violência escolar, a intervenção precoce, a sociologia da infância, a animação sócio-comunitária, a literatura infantil, entre outras.

Por tudo isto, o IEC é procurado por um público abrangente, que não se limita aos agentes educativos, estendendo-se a sociólogos, técnicos do serviço social, psicólogos, animadores sócio-culturais e artísticos, médicos, agentes da comunicação social, enfermeiros e outros profissionais que intervêm nos mundos da criança.

3. Os Estudos da Criança constituem uma área académica em grande expansão a nível internacional. Uma década depois da criação do IEC, encontram-se hoje, em muitos países, unidades orgânicas universitárias com a designação de Estudos da Criança (Child Studies, Children’s Studies ou Childhood Studies), um campo multidisciplinar que se desenvolve com autonomia no mundo académico, tendo lugar institucional bem definido. Todas elas têm uma (maior ou menor) interface com a educação (e as ciências da educação), mas encontram expressão própria no diálogo com outras áreas científicas.

4. A designação “Instituto de Educação e de Estudos da Criança” é uma mais-valia para a escola emergente e para a Universidade. A inclusão do nome “Estudos da Criança” na designação da nova escola não só assume a continuidade dos projectos académicos da Universidade do Minho na mudança agora iniciada, como lhe confere o seu carácter inovador, marcando a diferença e a mais-valia da escola emergente relativamente a instituições congéneres.

Estes argumentos sobre a designação da nova escola não põem em causa os compromissos assumidos pelo IEC no processo de audição das unidades orgânicas. Pelo contrário, consideramos que este é um momento histórico que nos oferece grandes oportunidades e desafios, e que teremos que enfrentá-los com abertura e imaginação, mas também com serenidade e respeito por aquilo que cada escola construiu até hoje, enquanto patamar para a fundação de uma nova escola com identidade e cultura próprias.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Escola de Educação, Instituto de Educação ou Instituto de Educação e Estudos da Criança?

Conforme a nota informativa nº 5 da Assembleia Estatutária, foi deliberado proceder-se a uma “Reestruturação do IEP e IEC, através da criação de dois novos Institutos, um na área da Educação e outro na área da Psicologia”. Na sequência dessa decisão foi convocada uma Assembleia do IEC, para 30 de Maio passado, com vista a uma auscultação sobre três possíveis designações da nova unidade orgânica, a saber: Escola de Educação, Instituto de Educação e Instituto de Educação e Estudos da Criança. Não me tendo sido possível estar presente nessa Assembleia, divulguei na véspera, por email, a seguinte posição sobre esta questão.

Caros colegas

Não podendo estar presente na Assembleia de amanhã, para auscultação dos docentes do IEC, quanto à designação da nova unidade orgânica na área de educação, gostaria de partilhar convosco o seguinte:

1. A expressão “Estudos da Criança” tem o seu equivalente a nível internacional na expressão “Child Studies”. Uma pesquisa na Internet permite concluir que esse domínio de estudos se caracteriza por uma abordagem psico-social e cultural da criança, com sede em instituições académicas que não têm a ver coma formação de professores de crianças. Há instituições de “Child Studies”, cuja filosofia preconiza que as crianças façam parte da comunidade institucional, funcionando como colégio e centro de estudos. Nesse caso é natural que aí se formem os professores dessas crianças. Todavia, a situação mais comum, quanto ao significado de “Child Studies”, está expressa na resposta a uma questão contida no portal da Universidade de Carleton, Canadá (http://www.carleton.ca/)

What Could a Degree in Child Studies Do for me?

A degree in Child Studies from Carleton University will qualify you for a variety of managerial positions, including senior administrative, directorial, and research positions in public and private sector agencies. Our graduates find challenging work in day-care centers, half-day programs, infant and toddler centers, private home day-care agencies, after-hour programs, hospital playrooms, infant stimulation programs, and community centre programs.

Desse ponto de vista o Instituto de Estudos da Criança não é um projecto académico de “Estudos da Criança”. Acresce que em dada altura da vida do IEC, houve um projecto de curso de formação de profissionais de assistência aos idosos (gerontologia), que não vingou. Esse propósito certamente não é congruente com a identidade científico-académica de um projecto de “Estudos da Criança”.

2. O IEC é como sabemos a continuidade do CEFOPE – Centro de Formação de Professores e Educadores de Infância – que veio substituir e ampliar o âmbito de competências da Escola da Magistério Primário. Na sua matriz original, que permanece actual, o IEC é fundamentalmente uma instituição de formação de professores de crianças e de investigação nos domínios científicos afins.

Após a institucionalização da designação IEC, desenvolveram-se outras actividades académicas que cabem na categoria de “Child Studies”, antes referida, mas isso não altera o facto de que o IEC é antes de tudo uma instituição de Educação.

Neste momento é oportuno lembrar que a institucionalização do IEC foi precedida de uma “avaliação externa” do CEFOPE (1995). Respondemos a inquéritos, prestámos depoimentos e todavia os resultados dessa avaliação não chegaram ao conhecimento dos docentes. Como observador atento que sempre tenho sido, posso afirmar que tudo se passou como se nenhuma “avaliação externa” pudesse contrariar a “inevitabilidade” da institucionalização do então CEFOPE como Escola autónoma na UM: o IEC.

3. Para além das razões antes enunciadas, outros motivos suscitam a minha discordância em relação à designação “Instituto de Educação e Estudos da Criança” para a nova unidade orgânica “na área da educação”. Note-se que aquela designação pode significar Instituto de Educação [da Criança] e [de] Estudos da Criança, o que remete exclusivamente para a “Criança”. Acresce a este viés o facto de a “Criança”, no final, ser uma palavra-chave que de forma incontornável qualifica a nova unidade orgânica - qualifica-a de forma muito redutora em relação à realidade que pretende designar.

4. À parte isso, várias questões se colocam:

- O que é que distingue a “Educação” dos “Estudos”?

- Se os “Estudos” dizem respeito à “Criança” porque é que os adolescentes não deverão ser objecto de “Estudos”?

- Se a ”Educação” tem como alvo os adolescentes onde fica então a “Educação” da “Criança”?

São muitas perguntas …“Instituto de Educação e Estudos da Criança” é pois uma construção linguística estranha, sendo de todo inadequada para designar uma instituição académica. A clareza ou a confusão da designação vale sobretudo para o exterior e não para quem está lá dentro. Teríamos que contar a toda a gente a história que estamos a viver para que pudessem entender a razão de ser de uma designação confusa e incorrecta.

5. Em minha opinião a palavra-chave da designação da nova unidade orgânica deverá ser “Educação”. Poderá ser uma “Escola” ou um “Instituto”. Seria uma Escola ou Instituto onde seriam bem acolhidas e teriam pleno cabimento as novas áreas académicas, entretanto criadas, no domínio dos Estudos da Criança.

Cordiais saudações académicas.

Joaquim Sá

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O TRABALHO DA "POBREZA"! E NA UNIVERSIDADE COMO É?

O "trabalho" da pobreza
17.05.2008, João Fraga de Oliveira (Público)

Não é admissível que, para não correr o risco da miséria, alguém tenha de se sujeitar à indignidade e ao risco.


No passado dia 11 de Maio, em Fátima, o bispo D. José Saraiva Martins, a propósito do "escândalo" da fome como "realidade triste e vergonhosa", apelava ao "respeito pelo homem e pela sua integridade", partindo do princípio de que "todos os homens têm o dever de ter uma vida digna" e frisando que "os valores da dignidade são inegociáveis".

Há já vários anos que o principal referencial da Organização Internacional do Trabalho (OIT), também já adoptado pela União Europeia (UE), é o direito de todas as pessoas a um trabalho digno (decent work).

Que relação poderemos estabelecer entre estas posições, a da Igreja, por um lado e, por outro, a da OIT e da UE, num contexto, mais que conhecido e denunciado por insuspeitas entidades, de encarecimento da alimentação, da saúde e da educação, baixos salários, quebra do poder de compra, endividamento pessoal e familiar, pobreza (mais ou menos encoberta) em que, ultimamente, muitas pessoas, em Portugal, (sobre)vivem?

Se para o crescente número de desempregados esta situação é desesperante, mesmo para a maioria de quem trabalha cada vez é mais difícil e incerto ganhar a vida. Mas um outro lado mais lunar, mais encoberto, desta realidade são as repercussões nas condições em que as pessoas ganham a vida, nas suas condições de trabalho. As condições de vida pessoal, familiar e social são indissociáveis das condições de trabalho.

Para quem está empregado, o medo de também cair no desemprego (acentuado pela eventual situação de precariedade do emprego em que se encontre) encontra na degradação das condições de vida um "caldo" onde germina, cresce e se generaliza uma atitude de não exercitação (ou até, tão-só, de reivindicação) dos seus direitos, mesmo dos mais elementares, mais básicos (e, por isso mesmo, constitucionalmente fundamentais), como é o direito a condições de trabalho que garantam a dignidade, a saúde, a integridade física, a vida.

É que, não nos iludamos, parafraseando um ilustre sociólogo português, tendemos a ser cada vez menos trabalhadores (sobretudo na exercitação dos nossos direitos) na medida em que tendemos a ser cada vez mais consumidores.

Resulta daqui o risco de emergirem e se desenvolverem situações que são a negação, perversa, do ciclo virtuoso (que, assim, se torna vicioso) que deve existir entre as condições de trabalho e as condições de vida (realização pessoal e profissional, saúde, dignidade, estabilidade económica, constituição e manutenção da família, etc.). E, assim, a mesma pobreza e sofrimento na vida pessoal e familiar que resulta da degradação das condições de trabalho (baixos salários, sobreduração, sobreintensificação, falta de condições de segurança, saúde e higiene), podem ser, perversamente, instrumentos da obtenção (ainda) de mais trabalho, da indigna exploração de quem trabalha.

Perante isto, não podem o Estado, o poder político e a administração, bem como as instituições pertinentes, alhearem-se e deixar funcionar o "livre negócio" de valores que são "inegociáveis". Devem, sim, caracterizar a situação e construir estratégias, recursos, metodologias e instrumentos de acção (em que a informação também tem um importante papel) que previnam e corrijam as consequências sociais que podem advir de uma outra face da pobreza e do "trabalho" que, na sombra, esta também faz (ou ajuda a fazer): a degradação das condições de trabalho.

É que, sob o ponto de vista da democracia e da cidadania, por mais que haja quem nos queira acomodar e conformar a um discurso meramente tecnocrata, gestionário e relativista dos referenciais mínimos da dignidade das pessoas, como tal e como trabalhadores, não é admissível que alguém, para não correr o risco da miséria e da consequente perda da dignidade na sua vida pessoal e familiar, tenha que, no trabalho, se sujeitar à miséria da indignidade e do risco.

Não é admissível que alguém, para ganhar a vida, para se manter socialmente digno, tenha que, como trabalhador, sujeitar-se à indignidade de não exercitar os seus direitos e ao risco de perder quotidianamente vida ou, mesmo, ao de, num instante, perder a vida.

Funcionário público, licenciado em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho.

COMENTÁRIO:

Excelente artigo, de elevada pertinência para os mais variados contexto laborais, inlcusive a universidade. Ver posts anteriores:

segunda-feira, 5 de maio de 2008

FENPROF E SNESup EXIGEM AO MCTES NEGOCIAÇÕES URGENTES

Comunicado de Imprensa

Negociações com o MCTES são urgentes

A FENPROF e o SNESup reclamam negociações urgentes com o Ministro Mariano Gago com os seguintes objectivos principais:

• Reduzir drasticamente a enorme precariedade das carreiras

• Desbloquear a progressão nos escalões e as promoções

O Ministro Mariano Gago tem fugido, desde a sua tomada de posse, à realização de reuniões que garantam efectivas negociações com as organizações sindicais, com vista à resolução dos graves problemas que vêm afectando a situação profissional dos docentes e investigadores, nomeadamente a grande precariedade e a grave limitação das perspectivas de melhoria salarial, seja pela progressão nos escalões, seja por mudanças de categoria.

A resolução destes problemas tornou-se ainda mais premente devido aos violentos cortes financeiros que o Governo tem imposto às instituições e devido às alterações legislativas aprovadas para a Administração Pública que implicam um novo sistema de vínculos e uma nova regulação da progressão nos escalões, e trazem elementos de grande intranquilidade para a futura situação profissional de docentes e investigadores.

É inaceitável que o Governo e o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior se mantenham numa posição anti-negocial, prejudicando o conjunto dos docentes do ensino superior e dos investigadores.

Na última reunião, entre o Ministro e a FENPROF e o SNESup, em conjunto, havida a 2 de Junho de 2007 (há já mais de 11 meses), foi por Mariano Gago anunciado que iria elaborar um documento com propostas relativas às carreiras para ser debatido no âmbito das instituições e por todos os docentes e investigadores e, posteriormente, negociado com os Sindicatos. Esse documento seria divulgado em finais de Setembro. Mais uma vez, tal como numa reunião efectuada ainda em 2005, com a FENPROF, onde fez idêntico anúncio, faltou à palavra.

Perante esta situação intolerável, a FENPROF e o SNESup, interpretando o sentimento dos docentes e investigadores, decidiram exercer pressão sobre o Governo e o Ministro, através da mobilização dos colegas, para que a abertura urgente de negociações para a discussão e procura das melhores soluções, seja uma realidade, particularmente em relação aos dois principais problemas que afectam os docentes e os investigadores: precariedade e bloqueamento das progressões e das promoções.

É contraditório que o Governo afirme preocupar-se com a avaliação e a recompensa do mérito, no que se refere à generalidade dos trabalhadores da Administração Pública, mantendo, ao mesmo tempo, no ensino superior e na investigação uma situação de bloqueio desse mesmo processo, com consequências negativas no plano sócio-profissional.

Os docentes do ensino superior e os investigadores já são avaliados com exigência através de concursos, provas e relatórios. Portanto, não aceitam uma situação em que na prática não têm de oportunidades de promoção e de progressão nas carreiras. Esta situação poderá levar a consequências negativas no plano da motivação e do investimento na profissão, com prejuízo da qualidade e da eficácia das suas actividades.

Para afirmar a vontade colectiva dos docentes e investigadores, encontra-se já, desde meados da semana passada, em subscrição on-line, um Abaixo-Assinado exigindo negociações ao Ministro e apresentando um conjunto de reivindicações, o qual, em tão pouco tempo, já recolheu quase dois milhares de assinaturas, número que cresce dia a dia.

A FENPROF e o SNESup solicitaram, por ofício de 1 de Abril p.p., uma reunião a Mariano Gago para negociação. Até ao momento, passado um mês e meio, o Ministro não se dignou, sequer, a acusar a recepção dessa carta.

A FENPROF e o SNESup darão ao Ministro mais uma semana para que este lhes responda, como, quanto mais não seja, mandam as mínimas regras de boa educação. Findo este prazo, estão na disposição de desencadear outras formas de acção que tornem publicamente bem patente o descontentamento que a sua atitude está a provocar entre os docentes e os investigadores.

A entrega do abaixo-assinado será um dos momentos privilegiados para uma das acções, não se excluindo outras que impliquem o envolvimento dos colegas nas suas próprias instituições. A FENPROF e o SNESup não aceitarão negociar no período de exames e, muito menos, no período de férias, pelo que, o final do mês de Maio e o mês de Junho, é o período adequado para o efeito.

As duas organizações sindicais já pediram encontros conjuntamente, ao CRUP e ao CCISP e projectam também solicitar reuniões ao Primeiro Ministro, à Assembleia da República e ao Presidente da República, se esta situação de bloqueio negocial por parte do Ministro persistir.

Lisboa, 15 de Maio de 2008

A FENPROF /O SNESup