sábado, 31 de outubro de 2009

A acção corrosiva da desumanização na UM: o caso da proposta de avaliação da qualidade!

Segundo José Gil (2005):

Nunca, ou muito raramente, os relatórios e inquéritos se referem a esses factores miscroscópicos. No entanto, um sector de empresa, de banco, de uma administração, de um escritório, de um hospital, de uma escola, de um ministério ou de outra macroinstituição qualquer não escapam à acção corrosiva de certas "relações interpessoais".

Com efeito, aqueles factores intervêm a esse nível. E contudo, como se sabe, a causalidade microscópica pode ter efeitos catastróficos (ou de sucesso) a uma escala mil vezes superior. (...) Infinitas injustiças são cometidas todos os dias (...) à conta de golpes baixos inconfessáveis que ficarão para sempre impunes no cômputo do Juízo Final...
(Gil, 2005: 90).

Desde há vários anos tenho introduzido para debate público a questão da atmosfera social e das relações interpessoais, como variável fundamental do ponto de vista dos níveis de satisfação pessoal, realização profissional e produtividade das pessoas na Universidade do Minho. Esse tema foi acolhido como relevante por outros colegas; outros ainda, em contexto eleitoral, por curtos períodos de tempo falaram das "pessoas", mas não se vislumbra que se abandonem os slogans do costume, onde a natureza da vivência humana dentro da instituição é reduzida a coisa nenhuma. O facto é que, para quem está atento (eu tenho a imodéstia de me considerar como tal), assiste-me nos tempos recentes a uma acelerada degradação do clima social e da relações interpessoais na UM.

Perante a frenética regulamentação que é atirada para cima de todos nós, quando se apela a reflectir, intervir, tomar posição a reacção generalizada é "não quero saber", "não tenho tempo", "estou farto", "quero emigrar daqui", "as pessoas estão a ficar doentes", etc. A inquietação, a ansideade, a angústia e mesmo o desespero alastram, especialmente entre os docentes de vínculo contratual mais precário: exprimir qualquer opinião é o risco do desemprego à vista. Certos poderes medíocres exploram sem escrúpulos essa vulnerabilidade. As pessoas refugiam-se no seu canto, alheando-se de tudo, procurando na discrição e no silêncio alguma protecção e segurança. Aos olhos dos poderes institucionais essa realidade não existe e não é equacionada como parte da política universitária. Outros há que farão o papel de fazer crer que tudo vai no melhor dos mundos.

A propósito, quantos docentes da UM conhecem o Programa de Qualidade (42 páginas) e o Manual da Qualidade (39 páginas), documentos enviados para as diversas chefias em 1/06/09 com a indicação de “uma ampla auscultação da comunidade académica” e um prazo de entrega de contribuições até final de Julho de 2009. Alguém sabe disto? Alguém está consciente das consequências de tais orientações de política de qualidade se vierem a ser aplicados?

Uma leitura atenta permite concluir que a natureza dos poderes de avaliação e a dimensão/desadequação das tarefas de avaliação previstas só podem ter como consequência a subversão da actividade que é avaliada, designadmente a actividade de ensino. À semelhança do modelo de avaliação dos professores da ex-Ministra da Educação, caminharemos para uma situação em que o importante mesmo é avaliar o ensino e não ensinar, o que acaba por ser avaliar aquilo que o sistema de avaliação não permite fazer.

Entre muitos dos aspectos inquietantes aí contemplados, pretende-se instituir a figura do "promotor da qualidade". O que é que isto faz lembrar? Comissários políticos? Agentes de uma qualquer "revolução cultural", que nos vão meter à força dentro da sua grelha "objectiva" de avaliação da qualidade?

Há uma estranha Comissão para a Garantia Interna da Qualidade (CGIQ) com poderes supremos sobre a qualidade, designadamento a do ensino, que pode inclusive instaurar auditorias sobre o funcionamento de uma Unidade Curricular. E qual é a composição dessa comissão? Veja-se:

- um vice-reitor ou pró-reitor;
- um gestor de qualidade (o que é isto?);
- um representante de cada unidade orgânica nomeado pelo respectivo presidente;
- o administrador (de quê?);
- o aministrador do SAS (pois, a figura omnipresente na vida da UM!);
- um representante dos serviços certificados (não sei o que é);
- o presidente da associação académica (tinha que ser...);
- dois representantes dos estudantes;

Qual é a nossa dignidade de professores universitários para aceitarmos isto?

Um aspecto completamente inaceitável é que esse documento de trabalho não tem rosto, o que contraria em absoluto os princípios de boa-fé e transparência democráticas. É fundamental que os autores do documento se dêem a conhecer, para melhor avaliarmos dos seus méritos e propósitos e sintamos que temos interlocutores.

Duas questões:
- Qual é a legitimidade de tais documentos de política universitária promovidos por um Reitor nos últimos dias do seu mandato?
- O que vai fazer com tais documentos a nova Reitoria, acabada de se constituir?

domingo, 18 de outubro de 2009

Um Novo Instituto de Educação na UM


[...]
Precisamos de ser criadores de um conhecimento educacional mais transformador, e incorporar esse conhecimento numa renovada formação de professores. É necessário que o novo Instituto se afirme publicamente como voz autorizada para tomar posição bem fundamantada sobre matérias de política educativa, especialmente quando dão lugar a graves conflitos entre o governo e os professores - não é compreensível o completo silêncio das instituições universitárias de Educação, perante as querelas recentes que criaram uma situação caótica nas escolas.

É pois desejável que essa Escola não seja o mero resultado do taticismo e dos arranjos de poder estabelecidos – isso não será uma nova Escola, não será um projecto para servir o País. É preciso que as novas ideias tenham o seu lugar para germinar, crescer e amadurecer.
[...]

Ver continuação em
http://um-novosdesafios.blogspot.com/2009/10/construir-um-novo-instituto-de-educacao.html

Joaquim Sá

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

António Cunha: o novo Reitor da UM

EDITAL

Em cumprimento do disposto no respectivo Regulamento, o Conselho Geral procedeu, em reunião realizada no dia 7 de Outubro de 2009, à eleição do Reitor da Universidade do Minho.

Do escrutínio resultou a seguinte votação:

Candidato Professor Doutor António Augusto Magalhães da Cunha – 14 votos

Candidato Professor Doutor Artur Manuel Perez Neves Águas – 1 voto

Votos em branco – 8 votos

Em face destes resultados, o Conselho Geral proclama eleito Reitor da Universidade do Minho o candidato Professor Doutor António Augusto Magalhães da Cunha.

Afixe-se nos lugares de estilo.

Universidade do Minho, 07 de Outubro de 2009

O Presidente do Conselho Geral

Luís Braga da Cruz

Comentário:

Felicito o novo Reitor, Professor António Cunha, pela sua eleição. Não posso deixar de, neste momento, manifestar a expectativa de que, na governação da UM, o novo Reitor e a equipa que o acompanha, sejam capazes de ler os fortes sinais de aspiração de mudança que, no seio da academia, se fizeram sentir em sucessivas eleições.

Um muito obrigado a Artur Águas!

Folgo em saber que outros colegas comungam do meu sentimento de agradável surpreza que foi a candidatura de Artur Águas.

Ver em http://pralemdazurem.blogspot.com/
Defendeu as "Artes" como nenhum engenheiro o consegue fazer, sugerindo que tal como nos EUA a Universidade fosse o Centro Cultural da cidade onde se insere. Ideias originais, que lhe saíram da manga, como um Instituto Galego no seio da UM ou um pequeno estúdio de cinema experimental num departamento de "Artes".
(...)
Um muito obrigado a Artur Águas por nos ter permitido sonhar com uma UM nova, mesmo que fosse só por uma ou duas horas de intervalo na rotina do dia-a- dia de um professor da UM.
Jaime Gomes

terça-feira, 6 de outubro de 2009

As audições dos candidatos a Reitor da UM

Assisti hoje a parte das audições das candidaturas a Reitor da Universidade do Minho. No Anfiteatro A1 estariam pela manhã, a ver a audição de António Cunha, umas duas dezenas de pessoas. Da parte do candidato ouvimos uma reafirmação de posicionamento e de ideias que em parte já vimos conhecendo de outros actos eleitorais. O meu destaque vai para a resposta que foi dada a uma questão apresentada por um dos conselheiros. Perguntava Manuel Pinto se, sendo António Cunha apontado como uma “espécie de delfim” de Guimarães Rodrigues, se tinha para a UM uma perspectiva de gestão “numa linha de continuidade ou de demarcação, de ruptura mesmo”, relativamente à forma de governo da actual Reitoria. António Cunha respondeu que, como Presidente da Escola de Engenharia apoiou algumas decisões e discordou de outras do actual Reitor, e que não considerava útil "falar de contextos do passado em que ocorreram certas situações que tiveram as suas razões”. Por outras palavras, o candidato a Reitor optou por não assumir uma demarcação em relação à actual gestão da UM - dada a situação a que chegámos era importante que o tivesse feito. No que diz respeito à ética e ao “código de conduta académica”, referidas no seu programa, as palavras de António Cunha, em resposta a uma questão de Esgalhado Valença, sugerem basicamente uma preocupação com a defesa dos direitos de autor, perante a facilidade com que hoje se tem acesso a variada informação académica.

À tarde, estariam no A1 uma meia dúzia de pessoas para ver a surpresa que nos reservara o candidato Artur Águas. Li o texto do seu programa e não apreciei o que pareceu ser uma certa meritocracia, centrada em palavras-chave como excelência, elite e prémios. Mas o candidato surpreendeu completamente pela pessoa que se revelou e pela apresentação que fez. Eu acredito mais no homem que vi do que no texto que nos divulgou. Um homem cujo pensamento académico cosmopolita se revelou inspirador da mudança e da inovação; que ao mesmo tempo que assumia uma atitude desassombrada na abordagem dos problemas, gerava afectividade com os ouvintes. A sua visão do cargo de Reitor é o antídoto da tradicional visão concentracionária. Sublinhou os poderes do Conselho Geral como órgão máximo de governo, deu grande relevo aos poderes de um Administrador competente com vista a uma boa gestão financeira, e pôs muita ênfase na função de catalisador de ideias e de projectos que possam emergir das pessoas onde quer que seja, no tecido académico. E ao que lhe apontaram como menos-valia – o facto de ser de fora e não conhecer bem a UM – transformou em mais-valia: estar fora de qualquer lógica de inbreading; não estar preso a compromissos internos que lhe limitem a capacidade de decisão no sentido do interesse geral. Apontou o período de um mês para constituir a sua equipa reitoral.

A sua prestação surpreendeu e ganhou votos…

PS: Eu diria que não ficou nada bem a postura de uma conselheira que, interpelando Artur Águas, dava expressão à cultura oficial de provianciano auto-elogio que tem sido cultivado entre nós, em torno de coisas sem relevância. Afirmava com algum insistência, em duas intervenções, "nós já temos", "nós já fazemos", "a UM é pioneira", "um avez que tudo o que propõe já existe na UM, diga o que propõe de novo", etc. Senti-me até incomodado ver-me representado deste modo no CG.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O Ministro e as práticas ilícitas no meio académico!

Segundo a agência Lusa, no passado domingo, os responsáveis do Movimento Anti-Tradição Académica, divulgaram que a Universidade Lusíada de Famalicão vai pagar uma indemnização de 90 mil euros à família do jovem universitário que terá morrido na sequência de uma praxe académica. Acto contínuo, o Ministro da Ciência e Ensino Superior avisou que não vai tolerar abusos nas praxes académicas, denunciando-os ao Ministério Público para responsabilizar quer os seus autores quer as direcções de instituições que permitam que aconteçam. (…) Adverte o Ministro que, pela "extraordinária gravidade" de algumas destas práticas, "não permite qualquer tolerância" com "insuportáveis violações do Estado de Direito" no meio académico. A "prática de tais ilícitos" deve ser (…) “muito especialmente [combatida], pelos próprios responsáveis das instituições".

Não posso deixar de comentar, perante tão enérgica atitude, que ficamos então à espera de novo aviso do Ministro: o de que "não permite qualquer tolerância" com OUTRAS "insuportáveis violações do Estado de Direito" no meio académico ("insuportáveis", digo bem), bem como da “prática de [OUTROS] ilícitos”, e que para isso responsabilizará “quer os seus autores quer as direcções de instituições”. Tais OUTROS…, sem visibilidade nem impacto na opinião pública, podem agora ter como certo que nem a santíssima “autonomia universitária” vai acobertar os infractores. O Ministro vai cortar a direito - sou um homem de muita fé...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A viloência psicológica no trabalho também mata!

Já se suicidaram 24 trabalhadores da France Telecom

Público: 29.09.2009 - 08h17
Por Ana Rute Silva

Um trabalhador da France Telecom, de 51 anos e pai de dois filhos, cometeu suicídio ontem, elevando para 24 o número de funcionários da empresa de telecomunicações que nos últimos 18 meses acabaram com a própria vida.

Numa carta deixada à família descrevia o seu sofrimento "motivado pelo contexto profissional". A esposa explicou às autoridades judiciais que o marido estava com uma depressão há vários meses.

Desde Fevereiro do ano passado que os casos de suicídio assolam a France Telecom, onde o Estado francês tem uma participação de 27 por cento. Os sindicatos já pediram mais protecção aos cem mil trabalhadores que, à custa das reestruturações provocadas pela privatização, são obrigados a mudar de local de trabalho, de chefias ou área.

"É uma vergonha. Ele trabalhava num local conhecido por ser inviável [num call center em Annecy, Alta Sabóia], sem humanidade e onde havia uma grande indiferença. Não se falava de outra coisa senão de números", criticou Patrice Diochet, dirigente sindical, em declarações à AFP.